Este é o índice Murilo que, de científico, não tem nada.
Explico melhor: Cansado de ouvir que o carro brasileiro estava ficando mais e mais caro, resolvi criar uma forma de saber se os preços estavam subindo ou não, de um ano para o outro. O problema foi criar uma base de comparação. Resolvi usar o salário-mínimo. Só que ele tem um quê de política. Aí usei também com o Big Mac Index, aquele índice criado pelo The Economist que compara o preço do sanduíche do Mequi em diversos locais do mundo. E descobri coisas fantásticas.
Primeiro de tudo, o trabalhador brasileiro tem toda razão de reclamar. Em 2021, com 36 meses, você saia da loja com um Renault Kwid, o carro mais barato na época. Hoje, vai ter que trabalhar um ano e quase cinco meses a mais, ou 44% a mais de tempo, pra ter um Fiat Mobi. O francês, agora, custa uns 16 dias a mais que o seu concorrente italiano. Mas temos que descontar a inflação, não é mesmo? Ainda assim, precisa trabalhar. O IGP-M nesses quatro anos foi de 19,8%.
Se pelo lado do salário, a coisa ficou pior, pelo lado do sanduba, ficou mais fácil. O Big Mac subiu menos que o dólar e, por isso, você compra mais sandubas do que me 2021. Eram cinco Bigmacs por dia, agora serão nove! Cuidado com a balança...
Pra quem ainda não ficou satisfeito, vamos comparar com o dólar? 91% mais caro. Um Mobi 2025 custa quase dois Kwids 2021. Engraçado é que o Kwid usado, hoje, custa mais caro do que o zero, em 2021. Você rodou quatro anos e ainda assim saiu 12,5% mais rico. Descontando a inflação, só perdeu 7%. Baita negócio!
Conclusão? Ficou mais barato andar de Uber por aí... Pelo menos, você não vai passar raiva...

Só porque agora, depois de 26 anos, resolvi doar minha mesa de desenho, a RIMOWA e a Faber-Castell Group decidiram lançar o estojo de lápis de cor mais maravilhoso que eu já vi na vida. Meu Mau Humorado de plantão está aqui bufando de raiva.
Não que eu tenha os R$ 19.700 que as duas empresas estão pedindo pelo conjunto de 120 lápis da coleção Polycromos. Definitivamente não tenho. Mas não custa sonhar, não é mesmo? Fico aqui me coçando pra comprar a caixa mais simples, que já custa dois paus e meio. Vinte mil? Daria pra comprar uma moto Bajaj, a Dominar. E ainda viria com o IPVA totalmente pago...
Essa é uma collab de responsa. As duas marcas alemãs se uniram pra produzir essa série limitada, sem nem divulgar a quantidade que ela vai ter. No mínimo uma, a produzida pro comercial e pras fotos. Interessante pensar que elas representam alta qualidade em suas áreas, mas que comunicam totalmente diferente nos seus sites. A filial brasileira da fabricante de malas já está anunciando a novidade. A sua parceira, aqui em Terra Brasilis, parece que ainda não recebeu o memorando interno...
Fiquei pensando o que essa collab transmite. Por parte da Rimowa, a percepção de que as malas da empresa realmente preservam bens preciosos. Quem usa lápis de cor sabe a dificuldade que é mantê-los organizados e sem se quebrarem. Do lado da Faber-Castell, a imagem de que seus lápis merecem um estojo feito pela empresa da mala mais chique do mundo dá um upgrade espetacular na marca.
As duas empresas são seculares. Faber foi criada em 1761. Rimowa, em 1898. Demoraram mais de 120 anos se namorando até que fizeram um casamento desses. Não sei se eu teria essa paciência toda. De todo jeito, é sempre bom ver como os realmente muito muito ricos vivem por aí...
O pedido partiu de mim, para o pessoal da Hyundai. Era clara a curiosidade do Bichinho de Marketing que vive dentro de mim. Já testei chinês, testei europeu, testei elétrico, híbrido e carro a combustão. Faltava um carro coreano e um americano. Comecei com o Kona, que me chamou a atenção desde o primeiro dia que o vi.
Ele é um SUV. Para os americanos, um SUV pequeno. Aqui, ele chegou acima do Creta, que desde que foi lançado se mantém como um dos carros mais vendidos no varejo brasileiro. Pensei: "Se a qualidade do modelo 'Made in Korea' for parecida com seu irmão brasileiro, esse é um carro pra conquistar o consumidor brasileiro". Me surpreendi.
Nunca pego um carro pra sentir o motor, o arranque, a velocidade. Não me encanto com isso. Quero saber do conforto e prazer de dirigir, já que detesto estar ao volante. Os cavalos não me chamam a atenção, os mimos sim.
Abri a porta e o interior se iluminou de azul em lugares como o porta-luvas e a porta do motorista. Bonito, mas sem sentido, pensei. No primeiro radar, quando o azul virou vermelho, me indicando que eu estava acima da velocidade e ia levar uma multa, meu Bichinho começou a sorrir. Sou um péssimo motorista, mas um ótimo colecionador de multas.
Fiquei impressionado com a rapidez com que minha esposa trocou o volante do Creta dela pelo Kona da fábrica. Desculpe-me, Mauricio Jordao, mas a paixão foi mais forte do que o contrato de comodato. Ela adorou rodar com o carro e numa coisa a gente concordou. É delicioso de dirigir, no dia a dia.
E é um carro gentil. Você chega com as mãos cheias de malas, sacolas ou outras coisas e não precisa ficar tentando dar rasteira no parachoque traseiro. Ele reconhece a chave e abre o porta-malas sem que você fique se equilibrando num pé só, feito saci-pererê, tentando achar o lugar onde aciona a abertura automática.
O genial foi ver o mapa do multimídia reconhecer automaticamente como 'casa' o local onde ele dormiu duas noites. O Kona me fez sentir bem recebido, o que é estranho, pensando em um automóvel. Alguém, na Coreia, pensou em como agradar o dono do automóvel, sem ser com o pedal direito.
Meu próximo passo é viajar pra praia com ele. Aí, sim, vou poder dizer se encontrei um carro que realmente me entende...

7:30 da manhã, chego numa padaria francesa pra tomar um café com meu amigo Domenico Massareto. Pedido simples, uma xícara com um croissant.
- Desculpa, mas não tem croissant, me diz a atendente.
- Como não tem croissant numa padaria francesa? Me traz um pão na chapa...
- Pode ser pão na chapa feito com croissant?
Domenico não consegue segurar a gargalhada. Ainda pergunto se é um pão dormido. A explicação é bizarra: É novo, só que existe croissant pro balcão, existe pra cozinha. Simples assim. Não entendo nada, mas aceito.
13:00. Chego em Mogi das Cruzes pra almoçar com minha cliente da consultoria, a Laura Tosta Faberge. Na porta do restaurante, um baita caminhão de gás atrapalha a entrada.
- Só cinco minutinhos, por favor. Estamos acabando de entregar o gás, me fala calmamente o motorista do bruto.
Uma eternidade custa a passar e só me resta esperar e perguntar pra uma funcionária porque a entrega no horário de maior movimento. Ela me explica que a empresa de gás se atrasou, apesar do pedido ter sido feito cedo.
Dois eventos separados, mas que me chamam a atenção pra um fato mais comum do que deveria ser. A operação do dia a dia é, talvez, mais responsável pela fuga de clientes do que a qualidade do produto ou serviço.
Aposto que deve ter uma explicação pra questão do croissant. Ou eles têm um formato diferente, pra entrar na chapa, ou não foram pro balcão, porque ficaram feios. De todo modo, o consumidor ouve um não no pedido mais simples de todos. É como faltar sorvete na Bacio di Latte, ou hambúrguer no Méqui.
No caso da entrega do gás é mais simples entender. O entregador de gás entrega gás. Só isso. Fechar a entrada da garagem não é um problema pra ele. Deveria ser pro gerente do restaurante. Mas não é, pois está ali, preocupado em atender as únicas duas mesas ocupadas. Quem sabe outros motoristas trocaram de restaurante, por causa da garagem fechada. Afinal, a rua é cheia de concorrentes.
100% do tempo e ações de uma empresa devem ser pensados pra facilitar a vida do consumidor. Tem empresa que consegue. Outras não. A gente não controla um caminhão atrasado, ou uma entrega não feita. Mas controla o que faremos a partir do problema.
Meu Mau Humorado de plantão chegou no fim do dia resmungando como nunca. Atender bem talvez seja isso: entender que o chato só está narrando o atrito que os educados engolem calados.

A gente tem certos comportamentos que, se alguém perguntasse pra cada um de nós, juraria que não faz. É como se fôssemos duas pessoas, uma que pensa e outra que age.
Isso faz com que, em certos momentos, as pesquisas nos mostrem resultados que não correspondem à realidade. E as empresas acabam tomando decisões baseadas nesses dados e perdendo milhões. É a confusão entre a luz, a pesquisa, e a estrada, a realidade. O mercado está cheio de exemplos de produtos lançados porque as pesquisas mostraram que iam ser um sucesso e que fracassam no ponto de vendas.
Pra não irmos muito longe, tem o clássico exemplo da New Coke, a Coca com novo sabor. Em 1985, por estar perdendo mercado para a Pepsi, a empresa fez teste cego com mais de 200 mil pessoas, aquele em que você experimenta o produto de olhos vendados, e tirou do mercado americano sua fórmula original. Lançou uma nova versão, mais doce, investindo milhões de dólares em fábricas e comunicação. Fracasso total. Em 79 dias, voltou atrás e relançou sua antiga receita, com o nome de Coca-Cola Clássica.
Não estamos falando de uma pequena empresa, mas de uma das maiores multinacionais do mundo. O que os testes cegos não pegaram foi a relação emocional com a marca. Mudar o sabor era negar isso. E beber um refrigerante desconhecido sem nenhum outro contexto é uma coisa. Mas abrir uma garrafa de Coca e encontrar outro sabor é romper com uma relação de anos.
Esse tipo de contradição será o tema da minha palestra “Fora do Automático, o consumidor mudou e a pesquisa não avisou”, na próxima terça, dia 22, às 19h, na ESPM. Serão somente 50 pessoas, entre alunos e convidados, nessa espécie de bate papo sobre essa distância entre os novos comportamentos e as pesquisas que negam a realidade que acontece nas lojas.
Comente no post, ou mande uma DM pra mim. A Panda Inteligência em Eventos e eu vamos sortear cinco pessoas para estarem com a gente. Duvido que vamos conseguir entender o consumidor. Mas vamos, pelo menos, compreender até onde vão as pesquisas nas nossas empresas.
