Ele trocou a semi-chinesa Volvo Cars pela 100% “Made in China” BYD. Cheio de gás, fala do seu novo desafio em construir a marca Denza. Pergunto sobre a experiência e ele comenta, animado, sobre a velocidade da nova empresa. Está especialmente impressionado com a visita ao país-sede, durante um dos milhares de salões do automóvel que acontecem por lá.
“O mais interessante foi ver os concessionários comprando tênis de marcas chinesas. Comprar um Nike não prova que eles estiveram por lá. Mas um tênis da Anta ou da LiNing…”. Opa! O Bichinho de Marketing que vive dentro de mim levantou a cabeça, que nem cachorro faz quando ouve barulho. Chinês mais interessante que a toda-poderosa dona do Swoosh?
Do ponto de vista do famoso “benefício de autoexpressão”, faz todo sentido. Você despenca de Terra Brasilis, apertado num charuto voador, vinte e tantas horas de tortura, pra ir conhecer a Disneylândia do marketing mundial e depois não vai contar pra todo mundo? Quer coisa melhor do que falar sem abrir a boca, do que um tênis estranho nos pés? Entendedores entenderão…
Ainda estamos longe da virada, mas a Anta, criada em 1991, já representa um quarto do tamanho da Nike. Fora que comprou uma parte da PUMA Group, tornando-se sua maior acionista. E já tem anos que é a Fila chinesa.
Impressionante perceber que a resistência contra os produtos “xing-ling” deixou de existir e começa a virar cool usar produtos chineses. O preconceito contido na expressão mostra que nossa visão era de baixa qualidade, mesmo apesar do mundo todo já ter feito, da China, a fábrica do mundo. Isso é importante lembrar. As mesmas empresas que hoje sofrem com os concorrentes vermelhos são aquelas que já haviam transferido suas produções em busca de preço mas, também, qualidade.
Antes, a gente brincava que o tênis da Nike era chinês. Daqui a alguns anos, vamos ficar impressionados de saber o Anta foi feito nos Isteites... O mundo está realmente mudando de eixo.

Já até confessei que me descobri um acumulador compulsivo por causa das dezenas de cadernos em branco guardados nos meus armários. Lógico que existem outros vários sinais de que, como tantas outras pessoas, compro coisas que nunca mais vou colocar minhas mãos. Mas o que mais me impressiona, nesta mudança, é me sentir solitário no meio de todo o mundo.
“Não entendi, Murilo! O que você andou cheirando?" Sei que passou pela sua cabeça, só não disse. A questão é que, quando estava olhando as notícias do dia, fiquei pensando em como os problemas são individualizados. Hoje, os executivos da Braskem estão lidando com um pedido de recuperação extrajudicial. Do outro lado do mundo, o presidente Zelensky diz que a Ucrânia quer paz, mas descarta rendição à Rússia a qualquer preço. Na TV, o Fluminense aparece perdendo pro Vasco, no vt do último jogo.
Tudo passa, até os horrores das bombas e drones. Pior, a gente se acostuma tanto com as coisas ruins da vida que a guerra nem aparece mais como destaque nos portais de notícias. A Rússia ataca a Ucrânia desde 2022 e a gente já nem liga mais. Mais importante é o gol que o meu time levou ou o medo de que a porta da geladeira se amasse na mudança.
Olho mais um livro que ainda não li (e que provavelmente não irei ler) ser embalado e fico pensando como somos egoístas. Não porque queremos. Mas porque não conseguimos lidar com os problemas do mundo. São muito abstratos para que a gente os entenda. Nos filmes de aventura americanos, o mocinho sempre cede à tentação de salvar uma única pessoa, mesmo colocando em risco todo o resto. A bomba vai explodir, matando milhões, mas ele se esforça pra salvar aquela que é "a mulher da sua vida".
Talvez essa seja a forma mais simples de explicar o que sinto por causa de uma simples mudança de apartamento. No mínimo, é a oportunidade de jogar fora certos lixos que acumulei durante os anos. No máximo, é reeditar minha vida, e me preocupar com o que é realmente importante.

Em tempos de redes sociais, esse tipo de teaser que as montadoras vêm fazendo é um enorme breca-vendas no concorrente. Com o pré-lançamento da Tukan no Festival de Barretos, parece que a alemã está dizendo: "Está pensando em comprar uma Strada? Espere um pouco e compre algo melhor..."
A Tukan chega somente no início de 2027, mas em fotos já não esconde nada mais a não ser seu interior. Lembre-se de que, em maio deste ano, durante a escalação da vergonhosa Seleção Brasileira, a pickup foi apresentada toda disfarçada. E que o mascote da CBF apareceu mostrando detalhes em vários sites. Era o começo do striptease do modelo.
Em termos de tamanho, vai ser maior do que a Strada, mas não chega à Toro. Conceitualmente, é uma Renault Duster, só que bonita. Acho que os franceses acabaram com o estoque de feiura no modelo deles. Sorte da Volks. Pra atrapalhar de vez com os planos da italiana, ela traz uma versão de trabalho, cabine simples, e outra de família, com duas fileiras de banco. Deu certo na Strada, pra que inventar moda?
No acumulado até ontem, a VW estava 60 mil carros atrás da Fiat. Dos 350 mil carros italianos vendidos, 136 mil foram de Strada, a líder disparada do mercado, e 35 mil de Toro. Se a novidade vender 30 mil em 2027, roubando "só" 20% das pickups da concorrente, no final do ano de 2027, as duas montadoras chegam empatadas. Além de conseguir dobrar o tamanho das vendas de pickup da marca, já que a Saveiro tem outros 32 mil vendidos, quase todos da versão 100% trabalho.
Lógico que tem o fator China na história. Apesar do fracasso da BYD Shark e da pouca representatividade da GWM Poer, esse é um segmento que ainda corre o risco de ser invadido por modelos chineses. Aí, como cantava Tihuana, "Agora o bicho vai pegar..."
Pra quem vive do mercado automotivo, como eu, não dá pra reclamar de monotonia e falta de emoção. Volks deu seu passo mais ousado com a nova Tukan. Fiat não vai ficar parada. Adoro essas aulas de marketing ao vivo!

Ozempic, Mounjaro, Wegovy e agora Foundayo? Ele deve entrar em transe, toda vez que precisa sacar uma nova palavra que não existe no dicionário. E pode ter certeza, não foram criadas por IA. Ela alucina, mas nem tanto...
Essa novidade, o Foundayo, é a resposta da americana Eli Lilly and Company à criação da versão pílula do Wegovy, da concorrente dinamarquesa Novo Nordisk. Aqui, a gente já começa a perceber como estratégia é uma escolha. Enquanto a Novo quer criar uma marca para significar a solução contra a obesidade, ou seja, "não importa o formato, se caneta ou cápsula de engolir, Wegovy é a solução", a Lilly aposta em nomes diferentes para formatos de consumo diferentes. Caneta? Mounjaro... Comprimido? Foundayo.
Qual é a melhor, só o tempo dirá. Se formos olhar o comportamento das bolsas de valores, parece que o investidor gosta mais de nomes diferentes. Agora, no começo do mês, as duas divulgaram seus últimos balanços. Lilly, com seus produtos separados, cresceu 5%. Novo, caiu 6%. Claro que não foi por causa dos nomes, mas por resultados financeiros e tudo. Mas sou publicitário. Prefiro pensar que o criativo da americana é mais criativo do que o da concorrente.
Engraçado é que, se depender de mim, a pílula vence a injeção. Quando eu era criança, fiz um tratamento que me obrigava a ser picado por uma seringa toda semana. Eu chorava, corria na sala do farmacêutico, até que meu pai me ameaçava bater. Para o Murilo criança, uma picada doía menos do que umas chineladas. Parece que a maior parte da população mundial tem o mesmo trauma. Além de ser mais fácil de consumir, a versão comprimido não precisa ficar na geladeira pra não perder sua validade. Em compensação, as atuais canetinhas emagrecem mais do que a versão que desce pela garganta.
Os comprimidos para emagrecimento ainda não chegaram à Terra Brasilis. Não oficialmente. As duas farmacêuticas devem estar correndo para obter autorizações junto à Anvisa. Mas não demora muito, o medo de se auto-aplicar injeções deve deixar de ser uma barreira contra querer emagrecer.

Nem se passou nem uma semana que comentei sobre o futuro das Casas Bahia e, domingo à noite, fomos surpreendidos com o pedido de Recuperação Judicial daquela que já foi a maior varejista do Brasil. Na verdade, não faltou quem comentasse comigo que a situação por lá estava insustentável, mas meu lado otimista me fazia pensar diferente. Mas 10 bilhões de reais de prejuízo são 10 bilhões. Meia Lojas Americanas do início das Inconsistências Contábeis.
O engraçado é que a crise das Casas Bahia escondeu o pedido das Lojas Marabraz, que também entrou em recuperação judicial, no mesmo final de semana. Motivos diferentes, mas crises parecidas. As duas redes pediram um tempo pra se organizarem, pois não estão sabendo lidar com as dívidas. Os problemas da antiga empresa dos Kleins têm a ver com mercado, subida de juros e endividamento junto aos bancos. Os da Marabraz são internos, brigas entre os sócios e seus familiares. No final, o resultado é igual: Correr pra pedir um fôlego para as autoridades.
Do outro lado, parece que a Havan está presente em outro Brasil. Enquanto Casas Bahia perde 1o bi no último trimestre, a empresa do Véio lucrou 1,46 bilhão em 2025, ou 3,4 bi quando se fala do grupo como um todo e não somente das lojas. Em metros quadrados, com as inaugurações mais recentes deve ter ultrapassado a concorrente, pois uma loja da Havan ocupa de cinco a seis vezes o espaço que uma Casas Bahia ocupa. Aliás, enquanto a empresa em apuros anunciou o fechamento de 296 lojas, a lucrativa empresa do Luciano tem pelo menos quatro megainaugurações previstas até o final do ano.
Tudo são decisões e estratégia. As mesmas informações que estão disponíveis para uma estão para a outra. O resultado final depende de quando acelerar ou pisar no freio. Parece que o carro do Luciano (o Hang, não o Burti) está bem mais acertado pra corrida.
